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05/06/2021

Zuzu Angel: quem foi a ‘mãe da moda brasileira’, criadora do desfile-protesto

8 min

Zuzu Angel foi uma estilista brasileira de relevância internacional, considerada a mãe da moda brasileira, e responsável por criações que enalteceram a cultura e a diversidade do Brasil mundo afora.

Através de suas ideias do que seria a moda genuinamente brasileira, Zuzu Angel escolheu as riquezas naturais e culturais que formam o Brasil como inspirações para as suas criações, desvinculando-se das referências da moda europeia, tão seguida no país até então. 

Além de estilista e costureira renomada, Zuzu Angel foi militante contra a ditadura militar brasileira, lutando até o trágico fim de sua vida pelo direito de enterrar seu filho mais velho, Stuart Angel Jones, torturado e morto pelo regime. 

Para entender por que seu nome é um dos maiores expoentes da moda e da luta pela democracia, vale a pena acompanhar um breve resumo da história de vida, sucesso, coragem e resistência de Zuzu Angel.

A estilista Zuzu Angel
Foto: Instituto Zuzu Angel

Zuleika antes de Zuzu Angel 

Antes de ser conhecida como Zuzu Angel, nasceu Zuleika de Souza Netto, em 1921, mineira da cidade interiorana de Curvelo e criada na capital Belo Horizonte. 

Ajudando a mãe a costurar para fora desde criança, Zuzu encontrou nos retalhos, sem perceber, o talento que amadureceria dali para frente, criando roupinhas de boneca e alguns modelos para suas irmãs com as sobras de tecido. Passou parte de sua juventude com a família em Salvador, na Bahia, até se mudar sozinha para o Rio de Janeiro em busca de independência financeira

Em 1943, casou-se com o norte-americano Norman Angel Jones, com quem teve três filhos: Stuart, Hildegard e Ana Cristina. Após idas, vindas e moradas em Belo Horizonte e Salvador, a família se estabeleceu no Rio de Janeiro, onde a carreira de Zuzu como estilista começaria a se desenhar. Norman e Zuzu se desquitaram em 1960, mas a estilista manteve seu sobrenome Angel como nome artístico.

Zuzu Angel e os filhos.
Hildegard Angel, Ana Cristina, Zuzu Angel e Stuart. Foto: Instituto Zuzu Angel

Zuzu Saias 

Em 1957, Zuzu criou um pequeno ateliê improvisado em seu apartamento em Ipanema para completar as economias domésticas. Com uma maior clientela, o ateliê se tornou Zuzu Saias e passou a contar com ajudantes para atender a alta demanda pelas suas criações, que crescia mais e mais. 

Ainda em Ipanema, o ateliê mudou de um apartamento para a nova cada da família, agora sem Norman Angel Jones, em 1961. O trabalho de Zuzu Angel se expandiu tanto que cinco anos depois já era bastante conhecido entre a elite carioca. 

A partir dali, Zuzu Angel começava a alavancar sua marca nacional e internacionalmente, promovendo desfiles no Brasil e nos Estados Unidos e se tornando destaque na mídia. 

Seus primeiros desfiles aconteceram em 1966 no 2º Salão de Moda da Feira Brasileira do Atlântico e no Clube de Decoradores do Copacabana Palace. Em 1968, estreou seus desfiles nos Estados Unidos, em um evento no Texas. 

Com o sucesso e a alta demanda por suas roupas, Zuzu alternava entre a produção sob medida e o prêt-à-porter em sua boutique no Rio de Janeiro, em um momento oportuno de aquecimento da confecção de moda no Brasil. 

Moda genuinamente brasileira 

Por conhecer cidades brasileiras muito distintas, Zuzu tomou para si muito da cultura de cada região e transmitiu essas inspirações em suas criações com renda nordestina, chita, seda, fitas, muitas cores e estampas da fauna e da flora brasileira, com influências do folclore e das tradições de cada lugar. 

Nascia ali sua marca e a alcunha de “mãe da moda brasileira”, por ser considerada uma pioneira na representação destes símbolos culturais nas roupas, e na transformação do “feito no Brasil e do Brasil” como algo chique. 

Materiais têxteis de uso doméstico, como a chita e as rendas nordestinas, de repente se tornaram parte das roupas das mulheres da elite brasileira, inclusive as mais jovens. Assim, ao mesmo tempo que trabalhava com reutilização de materiais, em um viés sustentável da moda da época, Zuzu também embutia em cada peça criada um pouco de história e heranças de mãos artesãs femininas. 

Modelo posando com criação Zuzu Angel
Créditos: Acervo Zuzu Angel. Dez/2013, RJ. Foto: Gilvan Barreto/Divulgação Itaú Cultural.
Modelos posando com criações Zuzu Angel
Créditos: Acervo Zuzu Angel. Dez/2013, RJ. Foto: Gilvan Barreto/Divulgação Itaú Cultural.

A assinatura de Zuzu Angel em suas criações também era notada em suas modelagens com bons caimentos, pensadas para mulheres curvilíneas como ela e outras brasileiras. A estilista também trouxe mudanças nas silhuetas, inspiradas na moda fresca da Califórnia e chique de Nova York. 

Suas peças eram mais joviais, confortáveis e fluidas, com modelos evasê, cinturas mais baixas e comprimentos que iam do mini ao máxi, tendências também vistas nas criações de estilistas como Mary Quant nos anos 1960. 

Ainda entre os anos 1960 e 1970, o Brasil seguia muito do que a Europa ditava como moda e o que era elegante. Zuzu Angel foi figura importante na mudança dessa percepção tanto no país quanto no estrangeiro. No entanto, ir na contramão da moda europeia e enaltecer uma moda mais abrasileirada não foi o único desafio imposto ao seu desejo de ser reconhecida como a estilista autêntica que era.

Croqui Zuzu Angel
Croqui de vestido com amostra de tecido. Acervo Zuzu Angel. Dez/2013, RJ. Foto: Gilvan Barreto/Divulgação Itaú Cultural.

Fashion designer feminista 

Como tudo na sociedade da época, a moda também estava muito ligada aos papeis de gênero. Zuzu Angel intitulou-se a primeira fashion designer brasileira e, como Coco Chanel e Elsa Schiaparelli, ganhou projeção internacional no mundo da moda, no qual as principais referências nos anos 1960 e 1970 eram nomes masculinos e a atuação das mulheres muitas vezes se limitava à costura

Sendo ela mesma uma figura feminina fora do tradicional para a época — desquitada, sustentava os filhos ao mesmo tempo que construia uma carreira — Zuzu defendia a liberdade da mulher para ser e vestir o que quiser. Apoiava os ideais dos movimentos feministas da época e, ao mesmo tempo que valorizava o trabalho artesanal das mulheres, trazia em coleções como Fashion and Freedom peças leves que davam mais liberdade ao corpo feminino e dispensava o uso de sutiãs. 

Moda de protesto

“Quem é essa mulher?”, cantou seu amigo Chico Buarque de Hollanda, em homenagem a mãe que “só queria embalar meu filho que mora na escuridão do mar”. Os versos da música Angélica contam parte do tormento e da angústia de Zuzu Angel em busca de seu filho desaparecido após ser preso pelos militares e morto sob tortura. 

No auge de sua carreira como estilista, em 1971, seu filho mais velho Stuart Edgart Angel Jones, estudante de economia e membro de um movimento revolucionário contra a ditadura militar brasileira, foi preso, torturado e morto sob o poder do regime, que negou à família o acesso e o paradeiro do corpo. 

Tendo sua voz, tecido, linha e agulha contra o regime da ditadura militar que lhe tirou o filho dos braços, Zuzu usou seu reconhecimento como estilista para mobilizar a mídia e autoridades no exterior sobre o que ocorria no Brasil.

Manuscrito de Zuzu Angel em cartaz de desfile
Manuscrito de Zuzu Angel em cartaz de desfile da estilista. Foto André Seiti

Desfile-protesto

Entre suas diversas intervenções, a mais famosa é a coleção International Dateline Collection III – Holiday and Resort, lançada em um desfile-protesto em Nova York, no  ano de 1971, e considerada a primeira coleção com objetivo de denúncia de regimes políticos autoritários através da moda. 

A moda de protesto de Zuzu Angel apresentava roupas de ares joviais e leves, como vestidos esvoaçantes e de modelagens amplas, figuras coloridas de casas, árvores e pássaros, em contraste com bordados de anjos mortos, aviões, canhões, pássaros em gaiolas e outras representações da ditadura. Ao final do desfile, Zuzu Angel apareceu de luto, vestindo preto e crucifixos na cintura, com um anjo no pescoço. Os anjos, a partir de então, seriam a principal marca de sua moda de protesto e de sua busca incessante por justiça.

Bordado de militar e canhão de Zuzu Angel
Bordado de militar e canhão em vestido branco de desfile-protesto de Zuzu Angel. Foto: André Seiti
Bordado de anjo de Zuzu Angel
Bordado de anjo em vestido branco de desfile-protesto de Zuzu Angel. Foto: André Seiti
Bordado de sol em prisão de Zuzu Angel
Bordado de sol atrás de prisão em vestido branco de desfile-protesto de Zuzu Angel. Foto: André Seiti

Zuzu Angel na memória do Brasil e do mundo

A busca de Zuzu Angel pelo filho não teve fim. Por enfrentar de frente quem teria assassinado seu filho, Zuzu sentia que também era um alvo. Uma semana depois, em 1976, Zuzu morreu em um acidente de carro, no Rio de Janeiro, na saída de um túnel que hoje leva seu nome.

Em 2014, a Comissão Nacional da Verdade (CNV), instaurada pela Lei 12528/2011 para investigar violações de Direitos Humanos entre 1946 e 1988 causada por “agentes públicos, pessoas a seu serviço, com apoio ou no interesse do Estado brasileiro”, teve acesso a uma foto que confirmou a vinculação da ditadura militar na morte da estilista, o que era reconhecido em processos de investigação desde 1998, com a Comissão Especial dos Desaparecidos Políticos. Zuzu Angel foi morta uma emboscada, onde um veículo fechou seu carro na estrada propositalmente, causando o capotamento para fora da pista.

Zuzu Angel foi eternizada na história do Brasil por sua luta por justiça e liberdade, e na história da moda por seu pioneirismo, sua arte e sua autenticidade que não deixam de ser também expressões de um desejo de liberdade tão pulsante na juventude da época e até os dias de hoje. Inspiração para uma moda que, além de vestir, comunica, expressa, muda o mundo. Permanece sua memória e herança de uma moda revolucionária.

Créditos de imagens deste conteúdo

Todas as imagens deste conteúdo foram retiradas de material de press kit da Ocupação Zuzu Angel do Itaú Cultural e do Instituto Zuzu Angel.

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Uma resposta para “Zuzu Angel: quem foi a ‘mãe da moda brasileira’, criadora do desfile-protesto”

  1. Elizângela Barboza disse:

    Obrigada por partilhar a história desta mulher incrível! Dá-se tanto valor ao que vem de fora, quando temos uma preciosidade destas na nossa história! É por estas e outras mulheres, brasileiras, incríveis que eu tenho orgulho se ser brasileira e nordestina! Mais uma vez obrigada!

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