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30/01/2013

Um guarda-arquivo-roupas-memórias

Vocês se lembram que eu disse que iria registrar amiúde minhas impressões sobre a exposição Caderno de Roupas, Memórias e Croquis, do estilista mineiro Ronaldo Fraga? Pois é, as emoções suscitadas pelas histórias contadas por Ronaldo Fraga ainda estão latentes em mim. E penso que assim permanecerão, pois como disse no outro post, o estilista trata de assuntos que nos são muito familiares (pelo menos para nós, mineiros).

Bem, hoje o mote para minhas reflexões (e também divagações) é a Moda como biografia. Nesse espaço da mostra, foram exibidas emblemáticas roupas, sapatos e objetos, isto é, peças de coleções desenvolvidas por Ronaldo Fraga, que tematizaram os ícones Arthur Bispo do Rosário, Pina Bausch, Zuzu Angel, Louise Bourgeois, Nara Leão, Carlos Drummond de Andrade, Tom Zé.

O guarda-arquivo-roupas-memórias de Ronaldo Fraga como um relato – aliás, penso que toda lembrança é um relato – trouxe à minha memória algumas doces lembranças (com seus inefáveis sentimentos): a casa acolhedora da minha avó, o quarto de sonhos de uma tia, a casa de uma tia-avó que era nosso (meu e de minha irmã) reduto durante as férias escolares.

Ao me deparar com o guarda-roupa das roupas-biografias de Ronaldo Fraga, me veio à mente o guarda-roupa das casas da minha infância. As lembranças, distantes e interpeladas por lapsos da memória, são como uma fotografia esmaecida pelas marcas inexoráveis do tempo, mas carregam as mais aprazíveis sensações – essas, indizíveis. A cena, talvez porque registrada em sépia, parece instituída de uma espécie de “aura”.

Mas voltemos ao guarda-roupa e ao iniciozinho dos anos 1970. No guarda-roupa estavam a camisola da primeira noite de núpcias, a roupa de domingo (sim, naqueles tempos, existia uma roupa especial, frequentemente, usada para ir à missa no domingo), a caixa de sabonetes, o enxoval da moça que ia se casar em breve. Lá ainda se acondicionavam as lingeries do dia a dia, as meias finas, o colar de pérolas, o broche de pedras coloridas, o relógio de pulso em ouro, minúsculo.

Se o quarto não alojava uma penteadeira, o guarda-roupa abrigava também o conjunto escova, espelho e pente em madrepérola, a fina caixa com talco e esponja (linda e delicada!!!), a caixa de música (presente do namorado), o pó de arroz e o rouge (esclareço: pó compacto e blush, respectivamente), os elegantes vidros de perfume (mantidos como objetos decorativos mesmo após ter findado o líquido).
 

E mais: o guarda-roupa acolhia também vários objetos de afeto/desejo. Lá se acomodavam o delicado bibelô, a diminuta mala de viagem, o toca-discos e a “intocável” coleção de discos (sim, os maravilhosos discos de vinil!), a boneca de louça (relíquia da infância), o gordo álbum de fotografias, a linda e perfumada caixa floral que segredava as cartas. Frequentemente, esses objetos se apinhavam em cima do guarda-roupa e compunham uma imagem cenográfica. Cenário de/para uma vida “real”, que Ronaldo Fraga soube, com maestria, (a)representar. O guarda-roupa do estilista, assim como o guarda-roupa lembrança da minha infância, parece preservar as suas ternas memórias e ser cenário para o sujeito feito estilista-artista-designer-escritor-ilustrador-contador de histórias.

 

 

Alguns devem estar se perguntando: mas o que tudo isso tem a ver com criação de moda? Muito! As criações/objetos do estilista, como registros em diários íntimos, colocadas à mostra dentro e em cima do guarda-roupa são uma aula de criação. Revelam a astúcia e sensibilidade de Ronaldo Fraga ao associar, de modo eficiente, técnicas e ferramentas da indústria de moda a pesquisa e processos subjetivos, em favor de uma primorosa e memorável criação.

Ah, só mais uma coisa. Peço-lhes licença para voltar à poesia-plástica de Ronaldo Fraga outras vezes. É que sua criação merece ser revisitada sempre!

Por Clícia Machado
Consultora da Federação das Indústrias de Minas Gerais

 

 

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